Introdução

A neoplasia mucinosa papilar intraductal (NMPI) de glândula salivar é uma entidade rara e recentemente descrita entre os tumores das glândulas salivares. Por ser uma lesão incomum e ainda pouco estudada, sua classificação e seu comportamento biológico ainda são temas de discussão na literatura. Uma das principais dificuldades diagnósticas é a sua distinção em relação a outras neoplasias salivares com diferenciação mucinosa, especialmente o adenocarcinoma mucinoso. Ainda assim, os casos descritos até o momento sugerem que a NMPI é um tumor de baixo grau de malignidade e comportamento pouco agressivo.

Características clínicas

Clinicamente, a NMPI é descrita principalmente em adultos e idosos, com média de idade em torno da sétima década de vida. Há discreta predominância em mulheres nos casos relatados.

A maior parte dos casos envolve glândulas salivares menores intraorais, especialmente a mucosa jugal. Entretanto, outras localizações podem ocorrer. A lesão pode se apresentar como um aumento de volume submucoso, com aparência nodular ou cística, geralmente de crescimento lento.

Características microscópicas

Microscopicamente, o tumor apresenta arquitetura predominantemente papilífera e cística, com projeções papilares para espaços luminais dilatados. Esses espaços frequentemente contêm abundante mucina intraluminal.

As estruturas papilares são revestidas por células mucosas colunares, muitas vezes com aspecto semelhante ao epitélio foveolar gástrico. Os núcleos tendem a ser arredondados ou alongados, geralmente localizados na porção basal das células, com cromatina delicada e nucléolos pequenos ou evidentes. Em muitos casos, as atipias citológicas são discretas, e a atividade mitótica é baixa ou ausente (Figuras 1A, B e C).

 

Imagem microscópica da neoplasia mucinosa papilar intraductal

Imagem microscópica da neoplasia mucinosa papilar intraductal

Imagem microscópica da neoplasia mucinosa papilar intraductal

 

Figuras 1A, B e C- Microfotografias da imagem microscópica em menor e maior aumento da neoplasia mucinosa papilar intraductal. Observe a estrutura papilar complexa e projeções que se estendem para espaços císticos dilatados  (A e B). A fotomicrografia em grande aumento mostra revestimento composto por uma única camada de células colunares altas, com conteúdo de mucina intracelular, núcleos arredondados , predominantemente localizados na região basal (C).

A avaliação imunoistoquímica pode auxiliar no diagnóstico. As células neoplásicas mostram positividade para  CK7 e NKX3.1, marcador identificado em neoplasias salivares mucinosas. Um ponto importante é a ausência de marcação para marcadores mioepiteliais, como p63, p40 e calponina, o que ajuda no diagnóstico diferencial com outras proliferações ductais ou papilíferas.

O diagnóstico diferencial inclui principalmente adenocarcinoma mucinoso, carcinoma mucoepidermoide, cistadenoma, papiloma intraductal e sialadenoma papilliferum. A presença de atipia acentuada, crescimento infiltrativo, mucina extracelular abundante, padrão em células em anel de sinete, maior índice proliferativo ou expressão de marcadores como p63 e p40 deve levantar a possibilidade de outras neoplasias, incluindo tumores de comportamento mais agressivo.

Expressão de CK7 no tumor mucinoso papilar intraductal

Expressão de NKX3.1 no tumor mucinoso papilar intraductal

Expressão de Ki-67 no tumor mucinoso papilar intraductal

 

Figuras 2A, B e C- Imagem microscópica mostrando positividade do tumor para CK7 (A) e positividade nuclear forte e difusa para NKX3.1 (B), além de baixa expressão nuclear de Ki-67 (C).

Tratamento

O tratamento da SG-IPMN geralmente consiste na excisão cirúrgica completa da lesão, com avaliação histopatológica criteriosa de toda a amostra. Como se trata de uma neoplasia rara e recentemente reconhecida, o acompanhamento clínico é recomendado, mesmo nos casos com características de baixo grau.

O aspecto mais relevante dessa entidade é seu comportamento biológico ainda em investigação. Embora a SG-IPMN seja considerada uma neoplasia de baixo grau e, nos casos descritos, apresente características compatíveis com comportamento indolente, ainda existem dúvidas sobre sua real relação com o adenocarcinoma mucinoso das glândulas salivares.

Leitura complementar:

1- Agaimy A, Mueller SK, Bumm K, Iro H, Moskalev EA, Hartmann A, et al. Intraductal Papillary Mucinous Neoplasms of Minor Salivary Glands With AKT1 p.Glu17Lys Mutation. Am J Surg Pathol. 2018;42:1076-1082.

2- Skálová A, Hyrcza MD, Leivo I. Update from the 5th Edition of the World Health Organization Classification of Head and Neck Tumors: Salivary Glands. Head Neck Pathol. 2022;16:40-53.

3- Soares AB, Teixeira LN, Melo JVBC, Passador Santos F, Freitas NS, de Araújo NS, de Araújo VC. Intraductal Papillary Mucinous Neoplasm: New Insights Into Its Origin and Nomenclatures. J Oral Pathol Med. 2025;54:70-75.

4- Nakaguro M, Sadow PM, Hu R, Hattori H, Kuwabara K, Tsuzuki T, et al. NKX3.1 Expression in Salivary Gland “Intraductal” Papillary Mucinous Neoplasm: A Low-Grade Subtype of Salivary Gland Mucinous Adenocarcinoma. Head Neck Pathol. 2022;16:1114-1123.

5- Patel S, Wald AI, Bastaki JM, Chiosea SI, Singhi AD, Seethala RR. NKX3.1 Expression and Molecular Characterization of Secretory Myoepithelial Carcinoma (SMCA): Advancing the Case for a Salivary Mucous Acinar Phenotype. Head Neck Pathol. 2023;17:467-478.

6- Skalova A, Hyrcza MD. Proceedings of the North American Society of Head and Neck Pathology Companion Meeting, New Orleans, LA, March 12, 2023: Classification of Salivary Gland Tumors: Remaining Controversial Issues? Head Neck Pathol. 2023;17:285-291.

7- Rooper LM, Argyris PP, Thompson LDR, Gagan J, Westra WH, Jordan RC, et al. Salivary Mucinous Adenocarcinoma Is a Histologically Diverse Single Entity With Recurrent AKT1 E17K Mutations: Clinicopathologic and Molecular Characterization With Proposal for a Unified Classification. Am J Surg Pathol. 202;45:1337-1347.

8- Nakaguro M, Urano M, Ogawa I, Hirai H, Yamamoto Y, Yamaguchi H, et al. Histopathological evaluation of minor salivary gland papillary-cystic tumours: focus on genetic alterations in sialadenoma papilliferum and intraductal papillary mucinous neoplasm. Histopathology. 2020;76:411-422.

 

 

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